Afinal, medicação trata estresse?

0

Uma das definições possíveis de estresse é a existência do sentimento de incapacidade em lidar com um evento de vida – seja ele positivo ou negativo.
É fácil pensar que situações que envolvem perdas e luto causem estresse, pois é senso-comum que situações “felizes” – planejadas, almejadas, satisfatórias, não tragam nenhuma consequência negativa. Não é isso que vejo na prática cínica. Tenho visto o estresse acontecer em progressões profissionais rápidas, nascimento de filhos, casamentos, aposentadoria. Eventos cotidianos e universais.
E medicação trata estresse? Não. O sentimento de incapacidade é revertido pela aquisição de novos pensamentos, e com eles estratégias, que tornem o indivíduo apto a lidar com o evento – ou que façam com que ele se sinta apto, se aproprie de que é capaz, pois muitas vezes observo que já há um manejo adequado da situação, embora a percepção disto seja diferente.
E quando se fala em medicar estresse, do que estamos falando? Esta vivência de sobrecarga pode acarretar sintomas ansiosos ou depressivos desorganizadores.
Por sintomas ansiosos, leia-se: a ansiedade generalizada (apreensão, preocupação exagerada, antecipação catastrófica), os sintomas somáticos (taquicardia, sudorese, tremor, diarreia) e também as compulsões (comida, sexo, compras, abuso de álcool e substâncias ilícitas – caminhos para se obter prazer imediato e alívio/ dissociação do estresse vivido).
Quando estes sintomas – e sintomas agrupados definem doenças, se instalam, eles turvam a percepção de mundo do indivíduo, desorganizam o comportamento o tornando disfuncional, trazem prejuízo às relações pessoais e de trabalho. É neste cenário que a medicação se faz necessária, inclusive para que a psicoterapia seja efetiva.
Nestas situações-limite é importante que se faça um mergulho interno para reorganização psíquica – entender as causas, os porquês, sem a culpa como companheira. E os sintomas funcionam como areia em movimento durante o mergulho: dificultam a visibilidade e por vezes a impossibilitam.
Frayed rope about to break isolated over a white background

Compartilhar

Sobre a Autora

Dra. Lygia Merini

Médica Psiquiatra pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), especialista em Psiquiatria e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Atualmente atua apenas em seu consultório particular. Anteriormente atuou como preceptora no Ambulatório de Dependência Química da Unidade de Álcool e Drogas (UNIAD) e também como preceptora no Ambulatório de Saúde Mental da Mulher, ambos vinculados à Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Além disto, é especialista em dependência química pela UNIFESP e concluiu curso em Pesquisa Clínica (Principles and Practice of Clinical Research) pela Universidade de Harvard (Harvard Medical School – EUA).

Deixe um comentário