Depressão e Doenças do Coração

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Nas linguagens asiáticas, a palavra que designa mente é mesma para coração. E, mais uma vez, estudos recentes confirmam a sabedoria centenária: há associação entre sintomas depressivos e doenças cardiovasculares.

Há ao menos três cenários de associação:
1. o indíviduo tem sintomas depressivos não tratados – o que não significa tristeza apenas, mas dificuldade em sentir prazer nas atividades cotidianas, irritabilidade, alteração do sono – e, então, isto somado a outros fatores que alteram a função hormonal e inflamatória acabam por gerar a doença cardiovascular: estudo publicado este ano na Noruega mostra que sintomas depressivos devem ser incluídos na lista dos fatores de risco modificáveis na prevenção de doenças cardiovasculares;
2. o indíviduo tem o adoecimento dos dois sistemas já instalado, e, por N motivos, faz o tratamento cardíaco, mas não o psíquico: outro estudo deste ano, uma associação entre faculdades do Irã e dos Estados Unidos, alerta para a grande frequência da coexistência do adoecimento destas duas áreas do corpo (o cérebro e o coração) e o subdiagnóstico da depressão dentre os pacientes pós cirurgia cardíaca (dificultando inclusive os cuidados com o corpo, o uso correto das medicações e o manejo das limitações impostas pela cirurgia);
3. o indíviduo nunca apresentou sintomas depressivos, entretanto, posteriormente ao adoecimento cardiovascular, houve luto pela doença, adaptação ao uso de poli-farmácia (com seus efeitos colaterais), e lida com as limitações impostas pela doença e pela idade.

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Em qualquer cenário, o importante é se ter clareza de que “mente sã, corpo são” é uma máxima e uma via de mão dupla, com feedback constante e bilateral. Há antidepressivos extremamente seguros na atualidade, que conseguem trazer o humor do indivíduo de volta à sua normalidade, que podem ser usados de forma concomitante a outros medicamentos, e com baixa incidência de efeitos colaterais. O grande risco mora em não tratarmos os indivíduos com transtorno depressivo, e não em oferecermos ajuda séria e cuidadosa.

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/04/04/sociedad/1396624915_996256.html?id_externo_rsoc=TW_BR_CM
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26925243
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27627224
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27665338

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Sobre a Autora

Dra. Lygia Merini

Médica Psiquiatra pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), especialista em Psiquiatria e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Atualmente atua apenas em seu consultório particular. Anteriormente atuou como preceptora no Ambulatório de Dependência Química da Unidade de Álcool e Drogas (UNIAD) e também como preceptora no Ambulatório de Saúde Mental da Mulher, ambos vinculados à Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Além disto, é especialista em dependência química pela UNIFESP e concluiu curso em Pesquisa Clínica (Principles and Practice of Clinical Research) pela Universidade de Harvard (Harvard Medical School – EUA).

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